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J. Miro - L'Oro dell' Azurro
Joan Miró (Espanha, 1893-1983)
L'Oro dell' Azzurro
Nota: 4 (1 voto)
Paisagens noturnas

Sobre navalhas


para Ana


 
Navalhas hão de cortar os meus pulsos! 
Vinho gelado servirei em cubos, 
E o peito repleto de icebergs rubros 
Será a lembrança de amores convulsos. 
 
Névoas frias ocultarão meu rosto; 
Lágrimas a zero grau verterei. 
Dias quentes serão o que não sei 
E o inferno — céus! — meu único gosto. 
 
Neve em pleno verão, gelo ante fogo... 
Silêncio lunar sob minhas escamas; 
Sobre o semblante, lacrimosas lamas; 
Na mandíbula, inda o último rogo. 
 
Manto de pedra cobrirá meus ossos, 
Uma tundra negra será meu leito, 
E o clima cada vez mais rarefeito 
Engolirá meus árticos destroços. 
 
Tênues poeiras serão meus dejetos, 
Súbitos lamentos brilharão velas, 
Ardores serão preces e querelas... 
Queimarei a alma em pélagos secretos! 
 
 
II 
 
Chama em pleno inverno, brasa ante gelo... 
É preciso aquecer a alma que chora, 
Ferver seu coração por longas horas 
Se quiser senti-lo, ou ao menos tê-lo. 
 
E as navalhas, antes frias, mortais, 
Para o peito que protege um vulcão, 
São apenas peças de aço ou latão, 
Sem outros fins, fora os habituais. 

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