| Paisagens humanas |
O bucolismo da cidade grande!
Como são belos os luzentes pirilampos a jato
riscando o céu enfumaçado
e deixando as nuvens pálidas de medo.
Este mesmo céu sendo insistentemente acariciado
pelos imensos formigueiros, com suas armaduras
de espelhos
e olhares perplexos.
Nas relvas de aço,
grilos-alto-falantes ensaiam uma batucada
de agudos contínuos e gritantes,
glorificando a monotonia elétrica dos seus pulsares.
Em outros cantos,
o tumulto silencioso de outros grilos,
que sussurram a tristeza de povoar
calçadas e desertos,
enquanto florescem os jardins
e alastram-se os bosques de pinheiros.
Tão sublime é ver o gado mansinho pastando
nas pradarias de vidro e concreto,
ruminando a rotina, o horário e a pressa.
Encantar-se com outros tantos rebanhos,
seguindo pastores e crenças,
esperando pelo abate nos matadouros celestes.
E os passarinhos, que maravilha!
Cantando nos galhos metálicos dos bares de esquina,
em infinitas esquinas,
ganham migalhas e semeiam a piedade.
Ah! e as borboletas, multicoloridas,
de salto alto,
sobrevoam a desgraça muda das flores sem pétalas,
sem teto,
sem aquela esperança que brota da rocha
e vira riacho.
E o que dizer da revoada de andorinhas tontas,
de terno-e-gravata,
que fazem verão, outono, inverno e toda uma primavera
de floridas fortunas e flóridas paisagens.
Oh! Como agradam os meus olhos
estes cotidianos bucólicos,
estes ares pesados,
estes rios imóveis,
estes campos de pedras intactas!
Quero retratar esta natureza incomum
com o grafite dos seus rochedos
e o neon das suas estrelas.
E enquanto a cidade festeja,
admiremos aquelas negras aves de rapina,
rodeando nossas cabeças,
sufocando nossos sonhos e esperando
a lenta acomodação de nossas carcaças frias
nessas praças libertárias.
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