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A noite revela coisas. O céu estrelado é o teto de tristes castelos, erguidos entre reis de gravata e descalços plebeus, cercados por lagos escravos da mansidão e feras enjauladas no concreto.
 
Na noite as sombras alastram-se, consomem sonhos de castiçais e ocultam os corpos que jazem nas pradarias de aço. Diante de meus olhos, um vulto, vago e indistinto, engole a penumbra e se faz visível.
 
Enquanto é noite, as estrelas nos vigiam com ferozes olhares animalescos...
P. Picasso - Garoto com cachorro
Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)
Garoto com cachorro
Nota: 4 (1 voto)
Paisagens humanas

Sírius


Sonhando e divagando sempre me deparo 
Com a figura lânguida de um cão faminto 
Que por vezes encontro, feito um anteparo, 
Inerte, sustentando seu corpo indistinto. 
 
As patas alquebradas, tremendo até os dentes 
Numa tortura vaga e mais silenciosa 
Que a dor reinante em suas pupilas tementes: 
Medo da morte, humana, usando terno e prosa. 
 
Os dois olhos confusos, perdidos na esquina 
Do insano desespero, entre a glória e a paz. 
Um contido murmúrio de fome que mina 
Do ventre oco e silente, qual resto que jaz. 
 
Ainda me recordo desse animal, fruto 
Da comunhão da vida com o negro alento; 
Sua imagem persegue meu ser diminuto 
Em cada passo raso no solo cinzento. 
 
A leveza do seu caminhar, seu "sorriso", 
Levam minha alma à turva desconfiança 
Que logo se revela num trágico aviso. 
Céus! O que vejo é uma santa criança! 
 
Jogada no tumulto da cidade ingrata, 
Fica imóvel diante da minha surpresa, 
Sorrindo, disfarçando a fome que lhe mata, 
Num silêncio voraz, tristemente indefesa. 

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