
| Paisagens humanas |
Sonhando e divagando sempre me deparo
Com a figura lânguida de um cão faminto
Que por vezes encontro, feito um anteparo,
Inerte, sustentando seu corpo indistinto.
As patas alquebradas, tremendo até os dentes
Numa tortura vaga e mais silenciosa
Que a dor reinante em suas pupilas tementes:
Medo da morte, humana, usando terno e prosa.
Os dois olhos confusos, perdidos na esquina
Do insano desespero, entre a glória e a paz.
Um contido murmúrio de fome que mina
Do ventre oco e silente, qual resto que jaz.
Ainda me recordo desse animal, fruto
Da comunhão da vida com o negro alento;
Sua imagem persegue meu ser diminuto
Em cada passo raso no solo cinzento.
A leveza do seu caminhar, seu "sorriso",
Levam minha alma à turva desconfiança
Que logo se revela num trágico aviso.
Céus! O que vejo é uma santa criança!
Jogada no tumulto da cidade ingrata,
Fica imóvel diante da minha surpresa,
Sorrindo, disfarçando a fome que lhe mata,
Num silêncio voraz, tristemente indefesa.
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