
Francisco de Goya (Espanha, 1746-1828)
Dois velhos comendo, 1819-23
O dia é árido e a multidão tem pressa. O campo é sonho e o alimento
é ouro. Despido de glórias, um rosto me olha — o rosto me olha —
tentando me subornar com a piedade que brota de seus olhos sem viço.
O dia é de santidades. Mas na calçada, a louca é um demônio que
todos afasta. Seu rosto lânguido continua a me olhar entre a multidão
de insetos apressados. No ar, o olor é de misericórdia.
A fome é encarnada. No rosto, moscas combatem. Na rua, a compaixão
esgueira-se pelos becos e desaparece nos bueiros sujos.
Contemplo a modernidade que reluz diante dos meus olhos já sem viço.
Rosto faminto
Louca, o seu rosto faminto, a súplica rouca
Entre ruídos de insetos, gritos de insetos
Rastejantes e abjetos.
Santa! Os joelhos na miséria, óbvia, tanta,
Que se espalha nas ruas, engole essas ruas,
Rútilas, vivas, cruas.
Sombra espavorida, lúgubre, que me assombra,
Furta espasmos fortes, queda de muros fortes,
Renasce de mil mortes...
Morre... padece na fome, ninguém socorre
A face da pobreza, a órfã da pobreza,
Sonâmbula, indefesa...
Fria?! Encravada na calçada mais sombria,
Estirada no leito, torpe, duro leito;
Morta! Um sonho desfeito.
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