| Paisagens humanas |
I
Cerca meus olhos a mesma angústia insana
Que carrega meus ossos numa atra carreta.
Tudo rasteja sobre a carcaça humana
Lapidada na estação de férrea cor preta.
Tudo foge em busca do bendito conforto,
Enquanto os molambos entregam-se aos suplícios
E os jovens astutos brincam de vivo-morto;
Vivendo de trocos, morrendo por seus vícios.
II
Nos vagões da monotonia, a cada instante,
Um novo grito disfarçando a piedade
Desperta do sono a percepção lancinante
E revela aos meus olhos a velha verdade,
Que se ocultava nas muralhas de concreto,
Nos parapeitos que dividem vida e morte.
Os ideais não seguem único trajeto,
Serpenteiam entre a miséria, o caos, a sorte.
III
Vultos caminham sem direção nem respostas
(Os lampejos de vozes são sempre as perguntas),
Ofertando coisas que nas mãos estão postas,
Esperando o Destino, em súplicas conjuntas.
Outra estação ergue-se diante das vistas,
Novamente negra, qual noite sem fronteiras.
Tudo morre: os sonhos, as lutas, as conquistas.
O trem parte... a vida trilha árduas barreiras.
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