| Paisagens humanas |
A praça abraça-me feito,
Do morto, o cúmplice leito
Sempre que peço repouso
E moradia.
Corrupto, às vezes ouso
Roubar-lhe os castos canteiros
Fazendo-os meus travesseiros
De alvenaria.
Os dias passam ligeiros...
São como cães perdigueiros
Atrás da caça abatida
Pelo cansaço.
É triste ser ave ungida
Pelas monótonas crises
Que acumulam cicatrizes
No aspecto baço.
Mas há dias mais felizes
Onde busco nas marquises
Um descanso que me valha
O mês inteiro.
E esqueço de quem trabalha
Em todas horas e cantos,
Dos operários aos santos,
Pelo dinheiro.
E os sonhos tidos são tantos
Que desperto entre os espantos
Dos transeuntes perplexos
Ante meu sono.
E seus olhos e reflexos,
Confundem-me com um bicho
Que habita a praça do lixo
E dela é dono.
Pois aqui em meu vasto nicho
O destino, por capricho,
Revelou-me o que eu buscava
Desde criança.
A labuta é minha escrava
E da preguiça sou cria.
Comendo ócio todo dia
Sorvo esperança.
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