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J. M. Basquiat - Sem título
Jean-Michel Basquiat (EUA, 1960-1988)
Sem título
Nota: 4 (1 voto)
Paisagens humanas

O comedor de ócio


A praça abraça-me feito, 
Do morto, o cúmplice leito 
Sempre que peço repouso 
E moradia. 
Corrupto, às vezes ouso 
Roubar-lhe os castos canteiros 
Fazendo-os meus travesseiros 
De alvenaria. 
 
Os dias passam ligeiros... 
São como cães perdigueiros 
Atrás da caça abatida 
Pelo cansaço. 
É triste ser ave ungida 
Pelas monótonas crises 
Que acumulam cicatrizes 
No aspecto baço. 
 
Mas há dias mais felizes 
Onde busco nas marquises 
Um descanso que me valha 
O mês inteiro. 
E esqueço de quem trabalha 
Em todas horas e cantos, 
Dos operários aos santos, 
Pelo dinheiro. 
 
E os sonhos tidos são tantos 
Que desperto entre os espantos 
Dos transeuntes perplexos 
Ante meu sono. 
E seus olhos e reflexos, 
Confundem-me com um bicho 
Que habita a praça do lixo 
E dela é dono. 
 
Pois aqui em meu vasto nicho 
O destino, por capricho, 
Revelou-me o que eu buscava 
Desde criança. 
A labuta é minha escrava 
E da preguiça sou cria. 
Comendo ócio todo dia 
Sorvo esperança. 

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