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J. Miró - Carnaval do Arlequim
Joan Miró (Espanha, Catalunha, 1893-1983)
Carnaval do Arlequim
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Paisagens noturnas

O carnaval dos mortos


Quando o último féretro deixa seus rastos 
Sobre o manto de túmulos calmos e castos, 
Um véu de vis prazeres cobre os muitos mortos 
Que ancoram, sonolentos, em sublimes portos. 
 
A rebeldia invade suas cavidades 
Insuflando vigor e musicalidades 
No sangue ressequido, nos ossos roídos, 
Levantando os escombros em graves gemidos. 
 
As lápides quebradas revelam seus rostos 
Marcados pela angústia e pungentes desgostos, 
Polvilhados com terra, que vibra e germina 
E dança! Os corpos tensos bailam na ruína. 
 
Inda presos aos trapos da monotonia 
Os esguios molambos caem na alegria 
Festejando e saudando o tosco carnaval 
Com brindes em cãs taças ósseas de cristal. 
 
Desejos maculados pela mãe dos loucos 
Reflorescem nos peitos podres, e em sons roucos 
Prenunciam a última hora de festejos. 
Orgias sepulcrais incendeiam-se aos beijos. 
 
A lascívia percorre os labirintos vagos 
Da festiva necrópole e os ébrios afagos 
Turvam a vítrea aragem que se torna opaca 
Aos olhos tenros, vívidos, da turba laica. 
 
Os corpos decadentes, a cada atro passo, 
Deixam pender fragmentos outonais, qual maço 
De ingratas folhas secas, e a cada outra dança, 
Farrapos e esqueletos findam a esperança. 
 
Derradeiros clamores de contentamento 
Trancam-se em suas tumbas com um sombrio alento, 
Enquanto um novo féretro deixa seus rastos 
Sobre o manto de túmulos calmos e castos. 

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