| Paisagens noturnas |
I. A LIBERDADE
Dia quente. Vento de pedra e sono
Banha a varanda clara que me abriga.
O tempo, também claro, anda e mendiga
Qualquer migalha de inverno ou outono.
Dia ermo. A liberdade ressuscita
No bater das asas de nada e nada
No dorso duma mosca esverdeada
Que levita e paira, e paira e levita.
Indignado com a abstrata ousadia
Da mosca e seu vôo, a mosca e seu vulto,
Fujo, corto os pulsos, não os escuto...
Minha liberdade! Inda que tardia.
Caído na mesma varanda calma
Compreendo do inseto o seu apelo:
A mosca é livre, sem querer sê-lo!
Meus vôos, apenas vislumbres da alma.
II. A SUBLIMAÇÃO
No campo praguejado de rumores,
Capim ante capim, estrume e lama,
Um alvo novilho berra e derrama
Sua tristeza ante a mãe em horrores.
Indiferente a este infeliz traço,
Um surto de bruxuleantes moscas
Orna a carcaça com vis manchas foscas
E vivas asas zunindo em compasso.
Um revôo de fétidas fragrâncias
Salta da abjeta e podre natureza,
Inunda o pasto com sua vileza,
Saciando as moscas e suas ânsias.
Absorto diante desta atroz cena
Abstraio a beleza difusa no ar;
Digo: a mosca é sublime por consagrar
Essa podridão que nos envenena.
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