abiliomateus.net
A A A

F. Kline - Sem título
Franz Kline (EUA, 1910-1962)
Sem título, 1957
Nota: 2 (1 voto)
Paisagens noturnas

Metafísicas da mosca


I. A LIBERDADE 
 
Dia quente. Vento de pedra e sono 
Banha a varanda clara que me abriga. 
O tempo, também claro, anda e mendiga 
Qualquer migalha de inverno ou outono. 
 
Dia ermo. A liberdade ressuscita 
No bater das asas de nada e nada 
No dorso duma mosca esverdeada 
Que levita e paira, e paira e levita. 
 
Indignado com a abstrata ousadia 
Da mosca e seu vôo, a mosca e seu vulto, 
Fujo, corto os pulsos, não os escuto... 
Minha liberdade! Inda que tardia. 
 
Caído na mesma varanda calma 
Compreendo do inseto o seu apelo: 
A mosca é livre, sem querer sê-lo! 
Meus vôos, apenas vislumbres da alma. 
 
 
II. A SUBLIMAÇÃO 
 
No campo praguejado de rumores, 
Capim ante capim, estrume e lama, 
Um alvo novilho berra e derrama 
Sua tristeza ante a mãe em horrores. 
 
Indiferente a este infeliz traço, 
Um surto de bruxuleantes moscas 
Orna a carcaça com vis manchas foscas 
E vivas asas zunindo em compasso. 
 
Um revôo de fétidas fragrâncias 
Salta da abjeta e podre natureza, 
Inunda o pasto com sua vileza, 
Saciando as moscas e suas ânsias. 
 
Absorto diante desta atroz cena 
Abstraio a beleza difusa no ar; 
Digo: a mosca é sublime por consagrar 
Essa podridão que nos envenena. 

Comentários

Nenhum comentário
*Nome:
Email:
Avise-me sobre novos comentários nesta página
Oculte meu email
*Texto:

Confirme o número que aparece na imagem ao lado.