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On white II
Wassily Kandinsky (Rússia, 1866-1944)
On white II, 1923
Nota: 5 (1 voto)
Paisagens noturnas

Falsa esperança


É o fim dos sonhos, é o fim do abstrato, 
das nuvens, do tempo, da meditação. 
Caio qual elefante baleado,  
desabo das infâmias eretas, 
e estirado na rocha, ainda vivo, respiro. 
Olho para o alto, o céu, o "heaven", 
olho nos olhos de um anjo amorfo e sem asas 
(uma dessas criaturas a quem damos corpos e vôos) 
e pressinto dias deliciosamente decadentes! 
 
Pura eloqüência!  
Tudo é falso ao meu redor, 
efêmeros exageros disfarçados de eternidade. 
Contemplo a face de uma criança sorridente, 
mas seus sorrisos são como mares sem ondas; 
admiro a beleza da mesma jovem que passa, 
mas ela é apenas uma estátua imaginária; 
ouço sinfonias, 
corais, 
brevíssimos, 
mas são somente roucos ruídos  
de máquinas e dentes. 
 
Tudo é dignamente falso, 
pois não seria a falsidade 
o direito mais digno das coisas ditas "belas"? 
Não acredito em máscaras miseravelmente eternas 
(nossas próprias faces um dia apodrecerão!), 
e também não creio em véus fugazes, passageiros. 
Cobrem os nossos olhos, cortinas disformes, 
delicadamente espessas, rústicas e horrendas, 
que se desfazem após o último suspiro, 
última palavra. 
 
Quero pedir silêncio enquanto faço minhas preces, 
minhas fezes de literatura corrompida pelos milagres. 
Última palavra... e os santos se despedaçam, 
ruínas de santificações que são levadas pelo vento — 
redemoinho de condenações atéias e pagãs. 
Quero gritar no silêncio que fazem 
os vermes interiores aos meus lábios  
que blasfemam, e sordidamente gritam. 
Quero fazer desses gritos insuflações da loucura. 
 
Ah! A Loucura! É hora de todos os loucos terem esperança. 
É hora de esperanças rotas e irrelevantes. 
Mas também é a eternidade das angústias e enfermidades, 
dos desgostos e dos sonhos tuberculosos. 
É a hora tardia! 
A hora tardia em que flutuamos sobre campos de espinhos 
cientes da queda inevitável, do cansaço,  
do passamento. 
Nossas asas pesam, os corpos inclinam-se,  
desabam sobre ponteiros de aço de relógios tresloucados. 
 
Caímos, e flechas retrocedem em rios de sangue; 
ajoelhados, feridos,  
contorcidos em sorrisos sarcásticos, 
observamos o sol noturno, o falso farol que nos guia. 
Tudo é pavorosamente revestido por uma verdade luzente, 
uma espécie de esperança:  
a fé dos tolos, a certeza dos idiotas. 
Encarnações de semideuses protestam e levantam os punhos 
cerrados, vedados, 
que ocultam tesouros e almas. 
Sorrio diante 
da esperança 
virgem e santificada... 

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