| Paisagens noturnas |
É o fim dos sonhos, é o fim do abstrato,
das nuvens, do tempo, da meditação.
Caio qual elefante baleado,
desabo das infâmias eretas,
e estirado na rocha, ainda vivo, respiro.
Olho para o alto, o céu, o "heaven",
olho nos olhos de um anjo amorfo e sem asas
(uma dessas criaturas a quem damos corpos e vôos)
e pressinto dias deliciosamente decadentes!
Pura eloqüência!
Tudo é falso ao meu redor,
efêmeros exageros disfarçados de eternidade.
Contemplo a face de uma criança sorridente,
mas seus sorrisos são como mares sem ondas;
admiro a beleza da mesma jovem que passa,
mas ela é apenas uma estátua imaginária;
ouço sinfonias,
corais,
brevíssimos,
mas são somente roucos ruídos
de máquinas e dentes.
Tudo é dignamente falso,
pois não seria a falsidade
o direito mais digno das coisas ditas "belas"?
Não acredito em máscaras miseravelmente eternas
(nossas próprias faces um dia apodrecerão!),
e também não creio em véus fugazes, passageiros.
Cobrem os nossos olhos, cortinas disformes,
delicadamente espessas, rústicas e horrendas,
que se desfazem após o último suspiro,
última palavra.
Quero pedir silêncio enquanto faço minhas preces,
minhas fezes de literatura corrompida pelos milagres.
Última palavra... e os santos se despedaçam,
ruínas de santificações que são levadas pelo vento —
redemoinho de condenações atéias e pagãs.
Quero gritar no silêncio que fazem
os vermes interiores aos meus lábios
que blasfemam, e sordidamente gritam.
Quero fazer desses gritos insuflações da loucura.
Ah! A Loucura! É hora de todos os loucos terem esperança.
É hora de esperanças rotas e irrelevantes.
Mas também é a eternidade das angústias e enfermidades,
dos desgostos e dos sonhos tuberculosos.
É a hora tardia!
A hora tardia em que flutuamos sobre campos de espinhos
cientes da queda inevitável, do cansaço,
do passamento.
Nossas asas pesam, os corpos inclinam-se,
desabam sobre ponteiros de aço de relógios tresloucados.
Caímos, e flechas retrocedem em rios de sangue;
ajoelhados, feridos,
contorcidos em sorrisos sarcásticos,
observamos o sol noturno, o falso farol que nos guia.
Tudo é pavorosamente revestido por uma verdade luzente,
uma espécie de esperança:
a fé dos tolos, a certeza dos idiotas.
Encarnações de semideuses protestam e levantam os punhos
cerrados, vedados,
que ocultam tesouros e almas.
Sorrio diante
da esperança
virgem e santificada...
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