
| Paisagens humanas |
I - AS FLORES
Flores para os mortos, os santos, os doentes.
Vaga rosa reflete o dorso duma velha
Sentada sobre as sombras, os braços dormentes,
Firmes... gesto paciente que a flor espelha.
A mão estendida, em silêncio, agride e chora...
Vende seus absurdos comprando piedade,
Inerte, muda, como a chegada da aurora.
Flores para os tolos, flores para a cidade.
II - A PROCISSÃO
Uma procissão de corpos e pesadelos
Segue as esmolas das caridosas retinas
Que cruzam o infinito e encaram os apelos
Cruéis... malditas revelações citadinas.
Membros desfigurados espreitam quem passa.
Súplicas juntam-se aos murmúrios dissonantes,
Inundam as calçadas com densa desgraça,
Com fé... moribundas lástimas nauseantes.
III - AS VELAS
Um mar incandescente alastra-se e consome
A carne pura, os olhos cheios de pecados;
Queima, ferve o vinho barato, cessa a fome
Dos cínicos pregadores abençoados.
Chamas infindas desabam do santo altar
Erguido entre a miséria, as esmolas tão parcas;
No trágico tumulto, no impiedoso ar,
Um perfume de morte deixa suas marcas.
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