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S. Dali - Os elefantes
Salvador Dali (Espanha, Catalunha, 1904-1989)
Os elefantes, 1948
Nota: 2 (1 voto)
Paisagens humanas

Bêbado e gordo


Vai, cambaleia desgraçado, cambaleia! 
Derruba teu corpo pesado de baleia; 
Regurgita a alma presa na tonta garganta; 
Rasteja na imundície da bebida santa. 
 
Alegria? Confessas tê-la numa taça 
Feita de vidro tinto, cheia de desgraça, 
Transbordando aos jorros em tua ávida boca, 
Aflita e sedenta feito uma virgem louca. 
 
Alegria? Imitando os porcos podes tê-la? 
É como no manto nublado olhar estrela, 
Ou num campo morto colher pérolas brancas. 
Levanta, palhaço, e junta as tuas pelancas! 
 
Um sorriso falso feito lágrima doce 
Deixas escorrer na face como se fosse 
Da tua agonia a cínica salvação. 
Gargalha, circense, e meta-se num caixão! 
 
Zombas da morte à beira dum precipício, 
Com as mãos atadas pelo teu velho vício, 
E inda pensas em planar sobre ermas campinas? 
Ora, sacripanta, tens a vida em ruínas! 
 
Estás perdido num labirinto sem volta, 
Tens abandonado a liberdade e a revolta, 
A coragem, os sonhos e a verve valente, 
Para morrer bêbado e gordo e sorridente? 
 
Levanta, palhaço! 
Gargalha, circense! 
 
Os olhos meio tortos, o rosto vermelho, 
Como se mirassem para um lúcido espelho, 
Volvem para meu lado, os olhos meio loucos, 
E os lábios, meio tortos, vão dizendo aos poucos: 
 
``Desce mais uma, chefe, que hoje vou morrer 
Senão de dor, ao menos de tanto beber! 
E essa vida que cuspo no chão, caro amigo, 
Sempre me foi como um tenebroso castigo!'' 
 
Dou-lhe um novo trago, sinto-lhe a lenta morte, 
Penso no dia em que terei a mesma sorte: 
Fugir da vida para encontrar minha paz; 
Fingir ser livre, sem tê-lo sido, jamais! 

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