| Paisagens humanas |
Vai, cambaleia desgraçado, cambaleia!
Derruba teu corpo pesado de baleia;
Regurgita a alma presa na tonta garganta;
Rasteja na imundície da bebida santa.
Alegria? Confessas tê-la numa taça
Feita de vidro tinto, cheia de desgraça,
Transbordando aos jorros em tua ávida boca,
Aflita e sedenta feito uma virgem louca.
Alegria? Imitando os porcos podes tê-la?
É como no manto nublado olhar estrela,
Ou num campo morto colher pérolas brancas.
Levanta, palhaço, e junta as tuas pelancas!
Um sorriso falso feito lágrima doce
Deixas escorrer na face como se fosse
Da tua agonia a cínica salvação.
Gargalha, circense, e meta-se num caixão!
Zombas da morte à beira dum precipício,
Com as mãos atadas pelo teu velho vício,
E inda pensas em planar sobre ermas campinas?
Ora, sacripanta, tens a vida em ruínas!
Estás perdido num labirinto sem volta,
Tens abandonado a liberdade e a revolta,
A coragem, os sonhos e a verve valente,
Para morrer bêbado e gordo e sorridente?
Levanta, palhaço!
Gargalha, circense!
Os olhos meio tortos, o rosto vermelho,
Como se mirassem para um lúcido espelho,
Volvem para meu lado, os olhos meio loucos,
E os lábios, meio tortos, vão dizendo aos poucos:
``Desce mais uma, chefe, que hoje vou morrer
Senão de dor, ao menos de tanto beber!
E essa vida que cuspo no chão, caro amigo,
Sempre me foi como um tenebroso castigo!''
Dou-lhe um novo trago, sinto-lhe a lenta morte,
Penso no dia em que terei a mesma sorte:
Fugir da vida para encontrar minha paz;
Fingir ser livre, sem tê-lo sido, jamais!
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