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I
Navalhas hão de cortar os meus pulsos!
Vinho gelado servirei em cubos,
E o peito repleto de icebergs rubros
Será a lembrança de amores convulsos.
Névoas frias ocultarão meu rosto;
Lágrimas a zero grau verterei.
Dias quentes serão o que não sei
E o inferno — céus! — meu único gosto.
Neve em pleno verão, gelo ante fogo...
Silêncio lunar sob minhas escamas;
Sobre o semblante, lacrimosas lamas;
Na mandíbula, inda o último rogo.
Manto de pedra cobrirá meus ossos,
Uma tundra negra será meu leito,
E o clima cada vez mais rarefeito
Engolirá meus árticos destroços.
Tênues poeiras serão meus dejetos,
Súbitos lamentos brilharão velas,
Ardores serão preces e querelas...
Queimarei a alma em pélagos secretos!
II
Chama em pleno inverno, brasa ante gelo...
É preciso aquecer a alma que chora,
Ferver seu coração por longas horas
Se quiser senti-lo, ou ao menos tê-lo.
E as navalhas, antes frias, mortais,
Para o peito que protege um vulcão,
São apenas peças de aço ou latão,
Sem outros fins, fora os habituais.
© 2008-2010 Abílio Mateus Jr. — todos os direitos reservados
28 de Junho de 2009 às 15:27:11 -0400. Hits: 116
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