entre sombras
poemas avulsos de abílio mateus jr.
Quoth the Raven, "Nevermore"...
J. Pollock poemas avulsos ofertas da casa idéias ao vento dejetos ao esgoto lixo aos nossos olhos desterros da alma asas de mariposa lágrimas de virgens sorrisos decadentes poemas entre sombras palavras aos montes de estrume e fel doenças radiantes felicidades esparsas cruzes num campo ossos na areia resquícios de gente restos de artilharia cadáveres de sombras poemas dispersos gritos de prazer orgias artísticas cenas de novela em novelos desfiados sono acordado sonho cabeças desfeitas gravatas e cordas lábios e foices lúcidas imagens poemas avulsos

Rosto faminto

O dia é árido e a multidão tem pressa. O campo é sonho e o alimento é ouro. Despido de glórias, um rosto me olha — o rosto me olha — tentando me subornar com a piedade que brota de seus olhos sem viço.

O dia é de santidades. Mas na calçada, a louca é um demônio que todos afasta. Seu rosto lânguido continua a me olhar entre a multidão de insetos apressados. No ar, o olor é de misericórdia. A fome é encarnada. No rosto, moscas combatem. Na rua, a compaixão esgueira-se pelos becos e desaparece nos bueiros sujos.

Contemplo a modernidade que reluz diante dos meus olhos já sem viço.

Louca, o seu rosto faminto, a súplica rouca
Entre ruídos de insetos, gritos de insetos
Rastejantes e abjetos.

Santa! Os joelhos na miséria, óbvia, tanta,
Que se espalha nas ruas, engole essas ruas,
Rútilas, vivas, cruas.

Sombra espavorida, lúgubre, que me assombra,
Furta espasmos fortes, queda de muros fortes,
Renasce de mil mortes...

Morre... padece na fome, ninguém socorre
A face da pobreza, a órfã da pobreza,
Sonâmbula, indefesa...

Fria?! Encravada na calçada mais sombria,
Estirada no leito, torpe, duro leito;
Morta! Um sonho desfeito.

28 de Junho de 2009 às 03:34:26 -0400. Hits: 179

Comentários

Nenhum comentário

Deixe seu comentário

*Nome:
Email:
Oculte meu email
*Texto:
code
Digite o código que aparece na imagem ao lado