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Dia de missa

Domingo. Os santos festejam. Os bárbaros confessam. Os pobres esmolam. Na esquina refletida no altar d'ouro, três cheiros confundem-se: as flores à venda, os apelos de graça, as velas das promessas.

Uma velha vende as flores regadas pelo tempo. Um povo numa procissão de estátuas oferta suas feridas em troca de prata. Nos cadafalsos da esperança, as velas derretem.

Os cheiros misturam-se aos cânticos e louvores, deixando um vestígio de morte na multidão de santos que burla o pecado. Dou uma esmola e também me santifico.

I - AS FLORES

Flores para os mortos, os santos, os doentes.
Vaga rosa reflete o dorso duma velha
Sentada sobre as sombras, os braços dormentes,
Firmes... gesto paciente que a flor espelha.

A mão estendida, em silêncio, agride e chora...
Vende seus absurdos comprando piedade,
Inerte, muda, como a chegada da aurora.
Flores para os tolos, flores para a cidade.

II - A PROCISSÃO

Uma procissão de corpos e pesadelos
Segue as esmolas das caridosas retinas
Que cruzam o infinito e encaram os apelos
Cruéis... malditas revelações citadinas.

Membros desfigurados espreitam quem passa.
Súplicas juntam-se aos murmúrios dissonantes,
Inundam as calçadas com densa desgraça,
Com fé... moribundas lástimas nauseantes.

III - AS VELAS

Um mar incandescente alastra-se e consome
A carne pura, os olhos cheios de pecados;
Queima, ferve o vinho barato, cessa a fome
Dos cínicos pregadores abençoados.

Chamas infindas desabam do santo altar
Erguido entre a miséria, as esmolas tão parcas;
No trágico tumulto, no impiedoso ar,
Um perfume de morte deixa suas marcas.

28 de Junho de 2009 às 03:37:36 -0400. Hits: 163

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