poemas avulsos ofertas da casa idéias ao vento dejetos ao esgoto lixo aos nossos olhos desterros da alma asas de mariposa lágrimas de virgens sorrisos decadentes poemas entre sombras palavras aos montes de estrume e fel doenças radiantes felicidades esparsas cruzes num campo ossos na areia resquícios de gente restos de artilharia cadáveres de sombras poemas dispersos gritos de prazer orgias artísticas cenas de novela em novelos desfiados sono acordado sonho cabeças desfeitas gravatas e cordas lábios e foices lúcidas imagens poemas avulsos
Vai, cambaleia desgraçado, cambaleia!
Derruba teu corpo pesado de baleia;
Regurgita a alma presa na tonta garganta;
Rasteja na imundície da bebida santa.
Alegria? Confessas tê-la numa taça
Feita de vidro tinto, cheia de desgraça,
Transbordando aos jorros em tua ávida boca,
Aflita e sedenta feito uma virgem louca.
Alegria? Imitando os porcos podes tê-la?
É como no manto nublado olhar estrela,
Ou num campo morto colher pérolas brancas.
Levanta, palhaço, e junta as tuas pelancas!
Um sorriso falso feito lágrima doce
Deixas escorrer na face como se fosse
Da tua agonia a cínica salvação.
Gargalha, circense, e meta-se num caixão!
Zombas da morte à beira dum precipício,
Com as mãos atadas pelo teu velho vício,
E inda pensas em planar sobre ermas campinas?
Ora, sacripanta, tens a vida em ruínas!
Estás perdido num labirinto sem volta,
Tens abandonado a liberdade e a revolta,
A coragem, os sonhos e a verve valente,
Para morrer bêbado e gordo e sorridente?
Levanta, palhaço!
Gargalha, circense!
Os olhos meio tortos, o rosto vermelho,
Como se mirassem para um lúcido espelho,
Volvem para meu lado, os olhos meio loucos,
E os lábios, meio tortos, vão dizendo aos poucos:
"Desce mais uma, chefe, que hoje vou morrer
Senão de dor, ao menos de tanto beber!
E essa vida que cuspo no chão, caro amigo,
Sempre me foi como um tenebroso castigo!"
Dou-lhe um novo trago, sinto-lhe a lenta morte,
Penso no dia em que terei a mesma sorte:
Fugir da vida para encontrar minha paz;
Fingir ser livre, sem tê-lo sido, jamais!
© 2008-2010 Abílio Mateus Jr. — todos os direitos reservados
28 de Junho de 2009 às 15:28:31 -0400. Hits: 127
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