
Sobrenatural
O susto apresentou-me seu vulto espasmódico,
Voador, sobrevoador de campos mortos;
Distingui as asas, as presas, os traços tortos...
Seu vôo me revelou um sentimento módico,
Raro entre as sensações de medo e decadência,
Loucura e embriaguez, fluidez sensata
Dos parcos devaneios que na mente ingrata,
Sobrevoam lágrimas da atroz existência.
Um demônio alado cingiu meu pescoço,
Feriu minha alma, transpôs a realidade
Das sagradas convenções do homem: a verdade,
A piedade, a fé jogada em fundo poço.
Um grito apunhalou meu peito sorridente,
E sorriu... e sangrei abraçado com a morte,
Imerso em águas rútilas, jorros do corte,
Transpiração contínua da vivência fremente.
Renasceram todos os prazeres humanos:
Eternos cálices embebidos com sangue,
Morte viva reluzindo no corpo langue,
Litanias da escuridão, cantos profanos...
A eternidade do absurdo, do negrume,
Da constante fuga que às trevas conduz,
Mostrou-me o caminho que percorro, sem luz,
Sem cruzes, num nevoeiro de acre perfume.
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