
Ser poeta
Náufrago desolado em mares causticantes,
À deriva, aflito ao ver singrar pelas vagas
Um povo de seres ignóbeis, rastejantes
Indo sem rumo, seguindo direções vagas.
Pássaro atônito no solo que blasfema;
Hirto, fragmentado em parvos elogios:
"Que lindo! Que belo! Que natural emblema!"
Surdo, diante desses gritos fugidios.
Morto, decapitado entre ossadas e moscas,
Indistinguível, invisível a olhos tortos...
Vejo-o bem, apesar dessas imagens toscas,
Das distorções. Vejo-o! Com os olhos absortos.
Decifro-o, construo obras de ser e não ser,
Mosaicos de existência, quadros da alma etérea.
Um espelho sombrio reflete meu viver...
Vejo-me, escondo-me, entre jóias e miséria.
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