
O poeta e o doente
I - VISÃO DOENTIA
Padece. Decomposto em trapos no seu leito,
O olhar passivo a percorrer o torvo teto,
Murmurando qual necrófago em resto abjeto;
O leve balouçar do ventre e do ermo peito.
Contemplo-o. Defronte do paciente afeito
A moléstias desde criança (ou mesmo feto),
Admiro cada arrebatamento secreto
Que encontro na palidez do turvo sujeito.
As vísceras à mostra revelam encanto,
Contraindo-se como as pálpebras num pranto,
Esguias e fugazes feito vil serpente;
Os espasmos imprevisíveis, o fluente
Rio, de tenebrosas águas rutilantes;
A paz dessas enfermidades delirantes.
II - PALAVRAS ENFERMAS
Conheces a vida, poeta desgraçado...
Assim como conheço os báratros da morte.
Mil paixões enforcam-me; sigo rumo à sorte
Que me aguarda, nas profundas do Mal amado.
De amargo sangue o frouxo peito embriagado...
Poeta maldito! Suspiras vendo o corte
Que atravessa meu coração de norte a norte,
Deixando escapar as angústias do passado.
Amaldiçoado sejas, poeta infame!
Que tua deplorável alma jamais ame
Qualquer espécie de beleza ou de ternura.
Amarás somente a podridão e a loucura,
A sordidez das carnes pútridas e mortas;
Teus versos serão feitos de palavras tortas.
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