
Mármore
Escrevo sobre rochas, e sobras de rochas;
Nas tumbas em ruínas, nas próprias ruínas
Dos templos dedicados às coisas divinas,
Às coisas sagradas, às fogueiras, às tochas.
Transpiro todo o suor, sinto todo o odor
Que penetra nas narinas mudas, gritante,
E nos lábios cegos reflete fulgurante
Toda a luz dos espasmos que levam à dor.
Traduzo cada sentimento de tristeza
De pena ou compaixão, tédio e desventura;
Traço todos os gestos da brutal loucura,
Todos os temores da pungente certeza.
Transcrevo para a pedra de singular forma
Os gritos e expressões da face doentia,
Da jovem beleza irradiando alegria;
Desgraça escorrendo na boca que informa.
E mesmo que a angústia aqui enaltecida
Cause aflição aos tolos, tal como às moscas,
Tornarei a escrever sobre essas formas toscas
Para me lembrar das asperezas da vida.
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