
A mortalha
Nessas noites frias e sepulcrais
As sombras dos corpos rastejam, lentas,
Em labirintos medonhos, sedentas
Pela luz de luzentes castiçais.
Pendem de sonolentas ossaturas
Restos de epidermes apodrecidas,
Vestígios de existências denegridas...
Manchas negras em burlescas pinturas.
Ao longe, um vulto indizível flutua
Na espessura leve, aérea, noturna,
E de forma vaga, em dança soturna,
Baila... difuso nos lumes da lua.
Com a veste triunfal, disfarçado,
— Mortalha soberba de muitos vultos —
No silêncio, no vinho, nos tumultos,
Caminha a desgraça... a morte do lado.
A esperança de encontrar sóbrias luzes
Guia seus passos, os falsos sentidos,
Na escuridão que aflige os desvalidos,
Na noite eterna, entre lajes e cruzes.
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