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Prólogo - A aurora
Dia de chuva
Fuga
Diurnos
Miserabile vita
Inspiração
Deuses metálicos
Ventos e raios
A morte do poeta
A queda
O fantasma
Subterrâneo
Allegro
Os viajantes
O campesino
O Tédio
Ébrio
A morte do assassino
Incenso
Brandemburgo
O medo do solitário
Últimas palavras
A chave
Dualismo
O escritor condenado
Anjo decadente
Danças
Danças da Escuridão
Primeiro livro do poeta Abílio Mateus Jr., publicado pela Scortecci Ed., em abril de 2002, e lançado na 17a. Bienal do Livro de São Paulo.


Em paz
A velha
Mármore
Pântano
Gritos da miséria
A cega
Suicidas
Saltimbanco
Sobrenatural
Poética das águas
A mortalha
Uma dança
Céu rubro
A carne
Transeunte
Ser poeta
De Profundis...
Vício
Tarde
Soturno
Angústia noturna
Noctívago
O poeta e o doente
Carpe diem
Hora sagrada
Alucinação ou falsa liberdade
Epílogo - O crepúsculo
A A A

Que tal? Pronuncio uma verdade que dilacera minha língua; salivo, cuspo ácidos rutilantes, rezo. Cada sílaba é uma verdade, cada palavra é uma demência, cada verso que exalo é uma verdade demente. Pergunto-te: que tal? Respondes com descaso, sem dúvida nem intervalo, mas também sem pressa. Respondes aos ares povoados por meus germes embebidos numa verdade, numa demência. Respondes, mas não te ouço. Que tal? Queres uma explicação, uma satisfação, um gozo, mas devolvo-te a questão: que tal?

Devoto dos meus prazeres, renuncio meus cargos celestiais, pronuncio outras verdades e outras verdades e outras demências. Tudo contraria o que digo! Ventanias cortantes defronte do meu rosto, assustam-me. Navalhas penetrantes caem das nuvens ubíquas que moldam meus medos — medos de eternos temporais. Chovem desesperos e desesperadas verdades. Tudo contraria as minhas vontades e a minha demência. Então, sorrindo, perguntas: — Que tal?

O silêncio é meu nobre e fatídico vício quando quero embriagar-me. Torno-me um desses loucos, ébrios, naufragando em abismos e quietudes. Irrelevantes manifestações sonoras repreendem-me, condenam-me, oferecem outro cálice (cale-se!) aos meus lábios sedentos, serenos, que espreitam o silêncio que cultivo, colho, que me alimenta. Declamo um negro poema sem estrofes, sem versos, sem idéias; apenas aquela mesma verdade, aquela mesma demência, aquela mesma pergunta disfarçada de poesia eterna. Pergunto-te, novamente: — Que tal? — Calado, ficas a observar-me, fitando meus olhos como um desses "cães" à espera de migalhas.

Livre de certezas, lanço aos ares famintos, palavras, verdades, demências... e danço, como corpos desfalecidos, uma dança infinita.

Abí­lio Mateus Jr.
em alguma noite de 2002
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